terça-feira, 16 de novembro de 2010

DISCURSO DE APOSENTADORIA COMPULSÓRIA PROF. CRODOWALDO PAVAN – USP - NOVEMBRO DE 1989


            Sou um indivíduo de sorte. Fiz o que gostei, diverti-me mais do que trabalhei e ao me aposentar recebo homenagens que estão muito além do que supuz que pudesse receber. Antes de me aposentar do Instituto de Biociências, recebi do corpo docente daquele Instituto, um abaixo assinado pedindo que não me aposentasse. A mesma manifestação de carinho são a forma de pedidos pessoais e abaixo assinado, que recebi dos docentes e funcionários do Departamento de Biologia. Deste mesmo grupo da Biologia recebi homenagem sob a forma de um almoço com show e discursos que me fez chorar de alegria e que sem duvida com as outras provas de amizade que tenho recebido, superam tudo o que esperei receber. Coroando essas manifestações aqui estamos para  nova homenagem  que, como as outras, deixa-me perplexo, com um nó na garganta e uma pergunta:  Será que mereço tanto? Ser homenageado por seus pares  é a maior e mais almejada recompensa que um intelectual pode desejar. Vocês estão me dando essa alegria que não tenho dúvida é partilhada  pelos meus pais aqui presentes, meus irmãos, irmãs e respectivas familias. Minha mulher, meus filhos e noras. Minha neta que com os pais está nos Estados Unidos, vai ouvir isso repetidas vezes nos próximos anos, e sem dúvida vai ficar orgulhosa do avô.
            Trabalhei, fiz o que pude e posso garantir que tudo o que fiz  teve mais a ajuda do coração do que do cérebro. Se fiz bem ou mal não cabe-me aqui discutir pois esta homenagem me coloca numa posição altamente parcial e  felizmente para o lado positivo do julgamento.
            Deixe-me abusar um pouco mais de sua paciência e boa vontade e falar um pouco sobre mim mesmo.

            Como decidi estudar Biologia?  Meu pai na época de minha decisão sobre que carreira seguir, era industrial e bem sucedido. Pensei em fazer a mesma coisa. O mais indicado seria então fazer engenharia e foi isso que tentei fazer. Comecei o pré da Politecnica que na época durava dois anos.  Naquela época as etapas sucessivas de ensino eram: Primário (4 anos). Ginásio (5 anos) Pré universitário (2 anos) e Universidade (de 4 a 6 anos dependendo do curso). Isso foi em 1937. Cursava o primeiro ano do curso que era excelente e na linguagem dos estudantes muito “puxado” . Acontece que, nesse ano, enquanto no curso, assisti um filme de Paul Muni, sobre a vida de Pasteur. Um filme notável e a meu ver só superado pela vida do próprio Pasteur. Fiquei encantado com o que vi e minha vontade de ser industrial esmoreceu.

            Na época estavam iniciando-se em São Paulo vários novos cursos universitários, com vários professores estrangeiros e ainda  poucos alunos.  Um deles era o curso de História Natural da FFCL. Tive sorte pois em 1938, para o ano letivo de 1939, estavam permitindo exames para candidatos com apenas um ano de Pré Universitário. Estava para mim. Fiz exame e entrei. Para ter  certeza que minha escolha havia sido acertada continuei a fazer o segundo ano do Pré Universitário, e foi uma fase complicada da minha vida porque os dois cursos eram muito absorventes e puxados.  Consegui durante um semestre acompanhar os dois curso, no inicio dando mais atenção ao Politecnico e no fim do semestre dando toda a atenção ao curso de História Natural, pois desisti de vez da engenharia. Mantinha ainda uma possibilidade de ser industrial pois no curso de História Natural havia cursos de Mineralogia e Geologia e a industria de meu pai era de cerâmica, ou mais  propriamente porcelana, e portanto, o conhecimento básico das rochas eram de importância, se eu quizesse me dedicar a essa industria.  O exemplo de Pasteur, no entanto, venceu todas as tendências e eu tornei-me Biologista.

            Devo aqui lembrar que na época, força igual ao exemplo de Pasteur, tiveram em mim as aulas, a personalidade e a cultura de André Dreyffus, meu professor de Biologia.  Com ele aprendi Biologia e com ele também a importância da ciência para o desenvolvimento da Humanidade.   Como seu assistente durante onze anos, aprendi a beleza e importância do conhecimento científico, capaz de nos explicar os fenomenos naturais e provavelmente suas causas, mas através desse caro mestre aprendi que, conhecimento científico só tem sentido dentro de um todo que é o conhecimento humano. A especialização é importante, mas em exagero é contra producente apesar de em muito poucos casos pode trazer satisfação pessoal. Hoje, mais do que na época, o conselho é sábio e agora não apenas como um procedimento  que pode levar á obtenção de satisfações pessoais, mas por uma necessidade e uma obrigação não apenas para com a nossa sociedade, mas mesmo para com toda a Humanidade.

            O espaço na superficie da Terra, disponivel para a população humana é limitado e independente do procedimento que tomarmos agora, em mais algumas gerações a população atingirá seu ponto de saturação, e pelo menos com relação ao número de pessoas, deverá manter-se constante. Da nossa atitude agora vai depender o  número máximo de pessoas que poderão sobreviver no estado de equilibrio homem/meio ambiente.

            Minha maior preocupação no momento é com relação à poluição e destruição do meio ambiente. É óbvio que não estou esquecendo e dando menos atenção aos problemas de Fome, Saúde, Educação  e Explosão Populacional. Acontece que, com relação a estes, de maneira melhor ou pior, com mais ou menos sacrifícios das populações serão resolvidos, mas os problemas de poluição e destruição do meio ambiente  com suas desastrosas consequencias, se não forem tratados já, com a atenção que merecem, poderão ser irreversíveis e trarão como consequência irremediável a diminuição do ambiente propício para as populações futuras e por conseguinte um menor número de indivíduos na face de saturação populacional.

            Onde estará, portanto a possível solução?

            Acho que todos em coro podemos dizer, “na Educação”.  Mas é óbvio que Educação exige certos requisitos e os básicos são alimentação e saúde - pelo menos na infância e juventude – junto com as quais a Educação forma o alicerce de uma civilização. Se ao aliarmos a situação brasileira, ou situação mundial com relação ao tripé básico do suporte da humanidade – alimentação, Saúde e Educação – o panorama futuro não nos parece muito animador.

            “A situação torna-se ainda mais sombria quando, por Ritchie – Calder somos informados: com os conhecimentnos científicos e tecnológicos já existentes, poderemos resolver todos os problemas materiais da humanidade atual.  O problema é “como fazer isso”, e infelizmente esse “como fazer isso” não é questão de conhecimento, mas de intenções”.

            A situação mundial é de tal ordem e as soluções tão difíceis por razões várias, que acredito, todos vocês tem opinião formada a respeito e podemos entender, sem concordar com ele, a afirmação de Barzium  em seu livro “Science the Gloriores entertainment”. “Tudo isso não pode deixar de nos levar  a convicção de que existe vida que compense viver. Quanto mais sentimental ou cerebral for a pessoa, mais capaz ela é , de verificar as forças do medo, das provações, os certos problemas cotidianos e mais vontade tem de chegar a um  breve fim. Não há razão para lutar contra esse estado de coisas para salvar um mundo que vai se revelar um inferno quando salvo”.
            Acho difícil, qualquer pessoa sã pactuar com essa opinião de Barzum, mas acho também inconsebível qualquer pessoa sã não pensar nos problemas pelos quais passa a população humana ou pelo menos de seu país.
            Acho lindo explicar a meus alunos que a Terra onde vivemos é um minusculo planeta num universo que tem tantos astros quanto os grãos de areia de todas as praias da Terra. 
            Que maravillha explicar como se divide uma bactéria e o que acontece dentro dela a cada vinte minutos, em sua forma reprodutiva.
            Quatro milhões de nucleotídeos
            Drosóphila
1          20 milhões em 3 minutos
            E o que dizer dos “milagres”  da engenharia genética
            Somatostatina e Insulina
            DNA artificial fabricado no laboraatório, baseado no modelo natural
            Produção da proteina humana em bactérias.
            Livrar os diabéticos do medo ou mesmo das reações imunológicas

            Poderia citar uma série de outras maravilhas científicas . Mas, vamos ao verso da medalha
.
 - Será que não é mais importante que cada um de nós, principalmente os intelectuais,  que serão os futuros dirigentes, ou os que irão educar os futuros dirigentes dos povos nos dedicarmos a isso?
 - Será que não será mais importante , como disse, nos concientizarmos da real situação das populações humanas e principalmente de nosso país, não para se chegar a uma conclusão como de Barzum, mas para tentarmos soluções racionais para os problemas humanos básicos?
            Acho que todos os cursos universitários deveriam deixar pelo menos um período (manhã ou tarde) por semana para estudos obrigatórios sobre o papel social do cidadão.
            Isso pode parecer utópico e mesmo ingênuo hoje, mas acho que como exemplos e pesuasão, conseguiremos atingir esse objetivo que a meu ver é de importância fundamental para o futuro da humanidade.
            Darei um exemplo que acredito ajudará a entendermos o problema que estou discutindo:
            Calhoum
            5 pares de ratos selvagens
            1100 metros quadrados
            50.000
            171 sobrevivem

        E acredito que o homem não vai apenas se perpetuar – ele vaiprevalecer. Ele é imortal. Quero dizer: o Homo sapiens é imortal.

I believe that man will not werely endure: he will prevail. He is inustal not because he alone amorig creature he are inexhaustible voice, but because he has a soul, a spirit capable of compassion and sacrifice and endurance.  The poet’s, the writer’s duty is to write about there things. It is the privilege to help man endure by lifting his heart, by reminding him of the courage and the honor and hope and sacrifice which have been the glory of the fast. The poet’s voice need not werely be the record of man, it can b one of the props, the pillars to help him endure and prevail.

já em 1989 a preocupação com o meio ambiente.








































































sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CRODOWALDO PAVAN - UMA ALUNA E SEU PROFESSOR


Neste três de Abril de 2009, morre o professor Pavan. Ele  era quase um paulistano. Afinal, Campinas fica logo ali. Mas é uma referencia para São Paulo e para a Universidade
Podia ter esperado um pouquimo mais – seis meses – e teria completado os 90 anos. 

Seu necrológio será publicado á exaustão, suas fotos cansarão olhares, sua trajetória profissional será repetida e repetida e repetida.

 Mas estas serão letras sobre um jovem professor e tempos de convivência  de um professor com uma aluna  que estava começando a se acostumar com o meio universitário.

Em 1948 entrei para a Universidade de São Paulo, que funcionava  não no belo campus que temos hoje, mas em um palacete de moradia – O Palacete Glette. 

1948 – 1949 foram anos de Zoologia e Botânica e em 1950 subimos para o sótão do Palacete para as aulas de Biologia com o prof. André Dreyfus e seus assistentes  Rosina de Barros,  Crodowaldo Pavan e Antonio Brito da Cunha.  Espaço acanhado, os microscópios quase se tocando, mas com a competência do prof .Dreyfus, o entusiasmo e seus assistentes e a nossa vontade de aprender chegamos a conhecer bem a célula e os cromossomas.  Só até ai.  DNA era um conceito apenas.  Só depois de 1950 é que  se tornou realidade.

Poucos alunos – minha turma tinha apenas cinco  – espaço pequeno, a conseqüência maior era a proximidade entre alunos e professores. Proximidade que gerava amizades pessoais.

 Nesta foto, que é uma preciosidade embora de baixa qualidade, dá para  perceber o relacionamento na época. A foto é  de 1950, mostra a minha pequena turma (5),o professor .Dreyfus   e na frente com a juventude explodindo  Crodowaldo Pavan.



Sempre cruzávamos nas alamedas do Palacete Glette o assistente Pavan e  com ele  sua esposa Lourdes, antes química e depois Psicóloga na sua segunda opção profissional. Morreu cedo, mas deixou nome de referencia  na Psicologia.

Crodowaldo Pavan sempre foi Biólogo, Geneticista e foi com ele que eu fiz minha especialização em Genética de Populações  para a licenciatura em História Natural.Foram nas suas aulas que as mosquinhas da banana,as Drosóphylas me foram apresentadas.


50 anos se passaram em que apenas noticias de seus sucessos profissionais chegavam até mim.  Só  lecionei  e não freqüentei  nesse tempo os meios acadêmicos.

Voltei a encontrá-lo em uma palestra sobre os 50 anos da descoberta e dos estudos do DNA.  E na minha volta à USP  o ambiente proporcionou novos encontros. Em muitos eventos em que nos víamos sempre havia um contato pessoal, algumas palavras trocadas.

Em 2006 pude abraçá-lo quando recebeu o titulo de Guerreiro da Educação e nas suas palavras de agradecimento ainda falou com entusiasmo das pesquisas  em que estava envolvido, algo como célula tronco e gema de ovo. 

A ultima vez que o vi, em 2008 já com 88 anos, foi no ônibus da USP, quando ele subiu firme e  seguro  e por  circunstancias outras sentou-se ao meu lado. Sempre me reconhecia, sempre falava alguma coisa da nossa época, nunca com saudosismo.  Era uma ligação do agora com um tempo da Biologia da  Glette.

Desses tempos já cumpriram  seu ciclo vital o Prof. Dreyfus, em fevereiro de 1952 (dia de nossa formatura),, Rosina de Barros e agora Crodowaldo Pavan.  De um tempo, de uma escola Antonio Brito da Cunha, o Totó Cunha para nós  ainda empunha o bastão da vida.

Não fui ao velório. Não gosto. Prefiro a celebração da vida. E as minhas homenagens são estas lembranças  de Crodowaldo Pavan com seu espírito humanitário, como “meu” ‘ professor amigo.
                                               Texto de abril de 2009
                                  
NEUZA GUERREIRO DE CARVALHO
                                               Licenciada em História Natural – turma de 1951

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

PROFESSOR PAVAN - o sempre lembrado

Neste 12 de junho, durante uma aula de História da Arte no MASP, reencontrei uma GLETIANA. Identificação saida de meia duzia de palavras informais no tempo que precede a aula. Gletianos se entendem e sempre falam de seus professores. E agora falamos do professor Pavan que está na primeira linha de meu pensamento pela exposição e envolvimento. 

E a gletiana Myriam Gonçalves de Oliveira que cursou História Natural da FFCL –USP na Glette, entre 1958 e 1961 me contou uma historinha de algo acontecido há 50 anos e que eu reproduzo aqui.

Diz Myriam:
“No ano de 1960 minha turma fez uma excursão a Rio Claro para conhecer o trabalho do professor Warwick Kerr com abelhas. Durante a excursão, a turma cantou em homenagem ao professor Pavan paródia com a melodia PADAM de Edith Piaf:
Pavan, Pavan, Pavan
Ele é sempre o nosso galã
Pavan, Pavan, Pavan
O estudo é o seu afã
Pavan,Pavan, Pavan
Dobzhansky, De Vries na lembrança
Malha preta, varinha na mão, que amor
Não vá estourar doutor!!

Continua Myriam:
“Na década de 70 fui assistir a uma palestra do professor Pavan no Colégio Bialik sobre Engenharia Genética, conversei com ele, cantei-lhe a musiquinha e ele lembrou de nossa turma e da excursão a Rio Claro. 

As suas aulas eram muito vibrantes e agradáveis. Ele nos introduziu na maravilha da Genética e sua engenharia.”

Não resisti e estou passando para todos esse depoimento expontâneo, sincero e emocionado de alguem que recebeu seus ensinamentos há 50 anos. 
Neuza Guerreiro de Carvalho – Gletiana 1951